A Mulher Escrava – Participação, Resistência e Influências no Processo da Escravidão¹
Magaly Mendes Cerqueira
Incomoda-nos, como mulheres e futuras historiadoras, essa visão machista construída há séculos que descreve a mulher negra como servil:
A história oficial não enfatiza com tanta veemência a participação e presença da mulher negra como enfatiza a participação do homem escravo. Mas, registros nos mostram que as escravas trabalhavam tanto na roça como também foram usadas por seus senhores como tecelãs, fiandeiras, rendeiras, carpinteiras, azeiteiras, amas-de-leite, pajens, cozinheiras, costureiras, engomadeiras e mão–de-obra para todo e qualquer serviço doméstico.
Os escravos trabalhavam desde a infância. Aos seis anos, meninos e meninas trabalhavam na roça tomando conta de animais ou fazendo covas para o plantio do milho.
Submetidas a um regime de exploração, ainda tinham de cuidar dos filhos, manter o cônjuge ou amázio, comprar mantimentos, enfim arcar com as despesas domésticas. Algumas escravas especializaram-se em um ofício, como a carpintaria ou a fiação, mas a maioria teve de aprender a fazer um pouco de tudo, devido à escassez de escravos na região do sertão mineiro e ao fato de os senhores possuírem em média poucos escravos (cinco aproximadamente).
Suas vidas eram sempre de sacrifício, embora não poucas vezes, espaços para lutas e reações acontecessem. Laura de Melo Souza na obra Desclassificados do Ouro descreve com maestria algumas dessas situações:
Em ambos os casos, verificamos o desrespeito a uma Lei que deveria assegurar às
mulheres citadas, a liberdade como um direito, mas percebemos principalmente a luta que elas empreendem para que essa liberdade conseguida a duras penas lhes fossem asseguradas. Percebe-se aí a preocupação com a família, com o bem estar dos seus entes, mas acima de tudo um conhecimento ainda que insipiente do seu valor como mulher e de seus direitos, buscando com isso desfazer a noção de ‘coisa’ que podia ser vendida, descartada a qualquer momento.
As primeiras escravas vieram com os colonizadores sem nome familiar, sem sobrenome. Pelas leis antigas, a escrava era considerada uma coisa, podendo ser vendida, dada e alugada como se fazia com as bestas. Aliás, a legislação dizia: ‘os escravos e as bestas poderiam ser vendidos etc., etc.. À escrava as pessoas se referiam da seguinte forma:
Isso era uma forma de conseguir algum recurso, é claro usando de estratégias, que as possibilitassem abastecerem os Quilombos na luta constante contra a escravidão.
[...] “A escrava Teodora pediu interferência do delegado para obter a promessa de venda por escrito de seu senhor. Voltando para casa teve como castigo os cabelos cortados, ‘adorno muito apreciado pelas crias’. Inconformada pôs fim à própria vida.”13
Ao longo da história, visualizamos aqui e ali, inúmeras situações que nos permitem entender o comportamento das escravas e o quanto de benefício isso trouxe para as gerações futuras.
[...] “Desde a escravidão, esse segmento populacional desenvolveu diversas formas de organização coletiva, e após a Abolição, foram criados grupos ou associações de caráter religioso, cultural e socioeconômico representados por Quilombos, confrarias, irmandades religiosas, caixas de empréstimos, etc..”15
Mas a persistência aos castigos e aos maus tratos fizeram dessas mulheres verdadeiros ícones da resistência. Graças a essas guerreiras é que muitos progressos foram alcançados e exemplos não faltam para confirmar nossas impressões:
Benedita da Silva eleita senadora da República e tantas outras que no anonimato transformaram e vão transformando sua história e a do povo negro.
Graças a tais iniciativas é que organismos de defesa buscam atualmente criar mecanismos que permitam a igualdade de oportunidades e direitos para as mulheres negras. Necessário lembrar que a situação das mulheres nas primeiras décadas do século XX ainda era desanimadora, mas, tem melhorado. Hoje vemos mulheres negras no comando de instituições, líderes de governo, em secretarias de Educação, enfim todos os segmentos da sociedade.
Injusto não falar que se esses progressos foram alcançados, com certeza a semente foi plantada lá nos primórdios da nossa historia com as lutas, com os suicídios, com os assassinatos de nossas escravas que foram os personagens mais importantes desta triste história.
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² Alunas de Graduação em História do Departamento de Educação – Campus X / UNEB, Teixeira de Freitas, Bahia.
³ Freire, Gilberto. Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Maia e Schimidt, 1933 p. 283.
4 Ibidem ³.
5 FALCI, Miridan Knox. História das Mulheres no Brasil. Mulheres no Sertão Nordestino. São Paulo: Contexto, 2008. p.250
6 SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do Ouro. Cópia de uma petição de Maria Angola, escrava que foi de Manoel Pinto, morador
7 SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do Ouro. Requerimento que a V. Excia fez Leonor e seus filhos com os despachos e informações que houveram e deferimento de S. Exª.
8 FALCI, Miridan Knox. História das Mulheres no Brasil.p.255.
9 FALCI, Miridan Knox. História das Mulheres no Brasil. p.256.
10 Ibidem 9 .p.264
11 FIGUEIREDO, Luciano. Historia das Mulheres no Brasil. Mulheres nas Minas Gerais. p.146.
12 FIGUEIREDO, Luciano. Historia das Mulheres no Brasil. p.146.
13 GOULART, Alípio apud MOTT, Maria Lucia de Barros. Submissão e Resistência: a mulher na luta contra a escravidão. p. 31.
14 MOTT, Maria Lucia de Barros. Submissão e Resistência. p.30.
15 RAMOS, Artur apud DOMINGUES, Petrônio. Artigo: Frentenegrinas: Notas de um capítulo da participação feminina na história da luta anti-racista no Brasil.
16 MOTT, Maria Lucia de Barros. Submissão e Resistência. p.38.
17 MOTT, Maria Lucia de Barros. Submissão e Resistência. p.15.


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